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A finalidade dos meios

Por da Redação • 2 Mar, 2008 • Categoria: Nada disso

“O Orkut não me interessa. Prefiro as fadas e os ogros da minha infância”. Dessa forma deu-se início à discussão proposta pelo Centro Acadêmico da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Cacos-Uerj) em seminário intitulado “A finalidade dos meios: visões sobre mídia, tecnologia e movimentos sociais”, realizado no último dia 2 de junho no Auditório 13 do campus Maracanã da mesma universidade. A partir da afirmativa de Mino Carta, chefe de redação da revista Carta Capital e co-fundador das revistas Veja e Isto É, pautou-se o evento em, para além de esclarecer aos estudantes de diversas faculdades de comunicação questões sobre novas tecnologias, suscitar discussões sobre diversos temas polêmicos acerca da profissão de jornalista.

O evento iniciou-se às 19 horas, com exibição de filme sobre a história da imprensa brasileira e a trajetória de jornalistas premiados pelo Prêmio Esso de Jornalismo. A mesa de debates, composta pelos jornalistas Chico Otávio, repórter-especial d’O Globo, e Maurício Dias, diretor-adjunto da Carta Capital no Rio de Janeiro, além do professor doutor da Faculdade de Comunicação da Uerj Vinícius Andrade Pereira, sucedeu a projeção. Junto a Mino Carta, os palestrantes compartilharam suas experiências na produção de notícias, bem como puderam admitir resistência em relação à prática jornalística atual e à mudança acelerada dos meios de propagação da informação.

Novos meios

“Que mídia é essa que nós temos, que mexe com cada vez menos pessoas da sociedade brasileira? Que mídia é esta que falhou?”, questionou Mino Carta, já causando inquietação na rodada de apresentação dos palestrantes. Chico Otávio em seguida justificou a insatisfação do jornalista através do insucesso da mídia em divulgar a dinâmica dos movimentos sociais: “O desenvolvimento das mídias deixou o repórter confortável para utilizá-las, mantendo-os dentro de suas redações”, disse.

Maurício Dias, por sua vez, atribuiu aos jornalistas veteranos repetição dos critérios de noticiabilidade nas mídias impressa e digital. Segundo ele, “Os blogueiros, por já serem jornalistas conhecidos, levam aos seus blogs os problemas historicamente existentes na imprensa”.

Vinícius Pereira, abordando sua linha de pesquisa acadêmica, completou a rodada com a afirmação de McLuhan “O conteúdo de um meio é o próprio usuário”. Para ele, “Vivemos em um momento muito peculiar, pois, sob perspectivas particulares, as mídias assumem diferentes formas”. Nesse mesmo momento Mino Carta foi enfático ao declarar que “o computador, na verdade, cria uma situação nova, mas de importância circunstancial, assim como o neoliberalismo e a hegemonia norte-americana”.

Conceitos de liberdade

Indagados acerca das definições de liberdade de expressão e liberdade de imprensa, os palestrantes desfiaram os momentos mais polêmicos da noite. Chico Otávio lançou olhares otimistas no tocante à produção jornalística: “Os donos do negócio tomam a decisão final do que será noticiado. É possível, entretanto, poder fazer uma matéria que necessariamente se afine com a linha editorial do veículo e sua própria lógica de pensamento”, disse.

Maurício Dias foi além e afirmou que “No Brasil, esses conceitos abstratos são pouco definidos”. Para ele, essa definição fica em segundo plano por ser desnessária aos donos dos veículos de comunicação. “Função social dentro de empresas privadas não existe, é balela”, provocou.

Para Vinícius Pereira, a concepção de liberdade de imprensa é ainda muito ingênua. Segundo ele, “o repórter é o faxineiro da palavra” dentro das redações e, enquanto não houver passado pela transição online e impresso, não conseguirá largar o estigma de ultrapassado. “Não consigo entender essa implicância da academia com o que acontece nas redações”, interveio Chico Otávio, apontando que “é leviano tirar conclusões de um processo ainda muito recente”. Mino Carta, entretanto, concordou com Vinícius, afirmando que “a carreira do repórter que conhecemos hoje está em processo de extinção”.

Democratização da comunicação

Questionados por alunos acerca do papel da mídia em representar ou retratar a realidade e por quem deveria ser realizado o discurso midiático, os palestrantes foram quase unânimes. “Temos blogs em que se fala o que quer para poucos e temos os jornais em que não se fala tudo o que quer, mas se fala para muitos. É ingenuidade pensar que a comunicação pode ser partilhada por todos igualmente”, afirmou Vinícius.

Chico Otávio alertou que se deve “tomar cuidado com idéias preconcebidas” e que a internet promoveu um processo de aproximação do leitor com a informação, já que a reação do público é imediata.

“Não se deve pedir para o jornal ser decisivo; ele deve ser honesto”, afirmou Mino Carta no tocante à democratização da comunicação. Segundo ele, “a comunicação se democratiza a partir da consolidação de um sistema democrático de fato”.

Na segunda rodada de perguntas, os palestrantes foram perguntados sobre critérios de noticiabilidade. Receberam também críticas acerca da não-discussão da ética profissional e da utilização das mídias atuais como resultado de um processo iniciado pelas elites. Maurício Dias utilizou a crise política do governo Lula como exemplo para a questão de hierarquia da informação: “A retratação da crise gerou frutos, ao contrário do que se pensa. Dentre eles está o sentimento de inconformidade da classe média, que é resultado da história fabulosa que construiu junto com a mídia e que, por ser mentirosa, virou pizza”, afirmou.

Para Vinícius, existe uma hierarquia de informações pautadas pela mídia que deve ser respeitada. Quanto à questão da reprodução de veículos de comunicação da elite, o professor foi enfático: “Você conhece algum veículo de comunicação não criado pelas elites? O português que estamos usando aqui, inclusive, é produto dessa lógica que tanto se condena. Não se pode querer voltar à Idade da Pedra para poderem as massas serem ouvidas”, disse.

Mino Carta, por fim, respondeu à pergunta de um dos alunos sobre o aumento das tiragens da Carta Capital e se essa mudança substancial de visual tem qualquer relação com benefícios conseguidos através do governo Lula. “Se a Carta Capital tivesse dinheiro e tivesse a chance de se auto-promover, teria uma tiragem de 120 mil exemplares e, mesmo assim, não faria matérias para vender”, afirmou.

O evento terminou ainda com auditório cheio, às 22 horas. Seguido de coffee-end, o seminário contava com mais de 90 inscritos antes de seu início. Para Vinícius Pereira, “É importante a realização de eventos como esse para mostrar que, mesmo parados em greve, a universidade preocupa-se com a formação de seus estudantes e com as questões relevantes de sua profissão”. Mino Carta também elogiou a iniciativa, afirmando ser uma interessante oportunidade de saber como a academia pensa a profissão de jornalista.

Tai Nalon

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