Entrevista: André Dahmer
Por da Redação • 2 Mar, 2008 • Categoria: Nada dissoO que uma dupla de margaridas, um cruel ditador de um país fictício e o Jornal do Brasil têm em comum? Não, não são três presentes baratos para seu melhor amigo – embora de certa forma faça sentido. Essas três coisinhas fazem parte da vida do designer por formação e cartunista por convicção Andre Dahmer. Criador das mordazes tirinhas dos “Malvados” e das mais recentes sobre “Emir Saad, o monstro de Zazanov”, Dahmer foi sucesso na web antes de ser chamado para compor a página de quadrinhos do JB. Em entrevista por email para a Re-vista! ele fala sobre sua carreira de hoje, ontem e amanhã.
Re-vista!: De onde surgiu André Dahmer, ilustre carioca? Antes de ser cartunista d’Os Malvados, o que você fez?
Bem, me formei em design gráfico pela PUC do Rio de Janeiro. Tinha vindo de uma experiência ruim na Belas Artes, na UFRJ. Muita disciplina, muito rigor, uma coisa castradora mesmo. Daí fui fazer o curso de design, ainda no mesmo ano. Não me adaptei bem, mas terminei o curso. Eu queria trabalhar com ilustração, e realmente atuo hoje na área (alguns trabalhos de pintura e desenho estão em www.pintura.com.br). Na parte de design, nunca consegui seguir a carreira, pois não gostava dos ambientes das agências e resolvi correr atrás do que eu gostava de verdade.
Re-vista!: Em algumas entrevistas que a Re-vista! fuçou pela internet, você aponta os quadrinhos do Scott Adams, criador do Dilbert, como uma grande influência sua. Quais outros cartunistas consagrados você admira? E quais cartunistas “alternativos” você considera como uma possível futura revelação?
Crumb, Laerte, Eisner e Angeli são os pais de todos os garotos da minha idade. Foram muito importantes para toda a minha geração. Dos novos, tá chegando gente muito boa no mercado: Mauren, Benett, Arnaldo Branco, Galvão, MZK… Zimbres e Allan Sieber então, nem se fala. Não dá nem para citar todo mundo, tem muito talento neste país.
Re-vista!: Nessas mesmas entrevistas que a gente andou dando uma olhada, você cita Ziraldo com grande admiração. Como foi para você ser convidado pessoalmente por ele a colocar semanalmente uma tirinha no Caderno B do Jornal do Brasil - principalmente levando-se em conta que críticas sociais pertinentes são ítens cada vez mais raros nos grandes jornais?
O Ziraldo me ajudou muito. O cara escreveu para o meu primeiro livro de quadrinhos, me deu força mesmo. E botou os Malvados num grande jornal, coisa que eu mesmo não teria coragem de fazer. O problema da falta de conteúdo na mídia é generalizado, não é só no jornal ou na TV. As rádios, as revistas… Tudo muito bem embalado, bonitinho. Mas você abre o presente e não tem nada dentro…
Re-vista!: Esse viés do humor negro adotado pelos Malvados já rendeu a você situações constrangedoras? Alguém já lhe abordou na rua, ou mandou emails maliciosos, ou já se sentiu fortemente agredido por causa disso?
Ah, eu recebo uns e-mails desaforados umas duas vezs por semana. E ameaças de morte, sempre de fanáticos da religião. Na verdade, quem tem peito não ameaça, vai lá e faz. Ameaça de covardes eu tenho uma coleção e casa, chega o inverno e boto na lareira…
Re-vista!: Depois do sucesso d’Os Malvados você lançou algumas tirinhas sobre O Rei Emir Saad, o monstro de Zazanov. Em quem ou em que você se inspirou para retratá-lo?
Me inspirei nos ditadores, nos poderosos, nos sanguinários de vida fácil. Muitos leitores aplaudiram a iniciativa…achavam, com razão, que era uma boa oportunidade para fazer algo de traço mais rico, mais elaborado. Mas outros leitores mais conservadores odeiam o Emir, os caras querem ler Malvados e acabou, sabe?
Re-vista!: Como você enxerga as perspectivas do trabalho de cartunistas no Brasil, atualmente? A internet, por exemplo, tem mais ajudado ou atrapalhado na popularização de trabalhos que antes permaneceriam anônimos?
Acho que tanto o cartum como os quadrinhos ainda são muito desvalorizados no Brasil, mas o mercado cresceu bem nesses últimos anos e as diversas mídias estão percebendo o valor desse tipo de trabalho. Claro que a rede nesse contexto tem um papel importante para o artista. Hoje, todos os que querem fazer quadrinhos, charges, vídeos, músicas encontram na internet uma possibilidade de mostrar seu trabalho e ganhar dinheiro e público com ele.
Re-vista!: No blog dos Malvados você diz que em entrevistas os jornalistas sempre perguntam a mesma coisa. Existe alguma pergunta, portanto, que você gostaria de responder e que nunca foi perguntado?
É engraçado, mas os jornalistas perguntam realmente sempre as mesmas coisas… Não ligo, não tem problema. Na verdade, sou reservado e pacato e não acho que minha opinião sobre as coisas tenha grande importância. Me perguntam sobre política, internet, quadrinhos… Mas o meu trabalho já fala bastante por mim e isso deveria bastar.
Re-vista!: Existe algum projeto a curto ou médio prazo de lançamento de um segundo livro envolvendo Os Malvados, ou de algum outro projeto seu?
Tenho em vista o lançamento de um livro ainda este ano, mas não tenho pressa. Gosto de fazer as coisas bem feitas e meu trabalho está acima do (pouco) dinheiro que ele pode me dar.
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