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Entrevista: Fernando Anitelli

Por Luiza Real • 2 Mar, 2008 • Categoria: Música

Fernando Anitelli é o homem “disposto” por trás do sucesso do Teatro Mágico, trupe paulistana que vem conquistando fãs com sua mistura de música, poesia, teatro, circo (entre tantas manifestações artísticas). Em conversa exclusiva com a Re-vista!, ele fala sobre como surgiu a idéia de “misturar tudo numa coisa só” presente na proposta do Teatro Mágico.

Re-vista! - Você diz que o show do Teatro Mágico é “uma desculpa esfarrapada para um monte de gente rara se encontrar”. Como nasceu o Teatro Mágico, como tanta gente rara se reuniu?
Surgiu a partir do momento em que um outro projeto musical que eu participava, o Madalena 19, terminou. Com esta banda, eu ia a muitos saraus. Gostava desse ambiente de soma, de participar de rodas, cirandas… Nos saraus acontecia de tudo, era aquela sopa cultural. Foi assim que eu tive a idéia de aumentar esta energia. Na verdade o Teatro Mágico é meu primeiro trabalho solo. Chamei amigos músicos, uma amiga minha também me ajudou a conceber figurinos e cenário. Depois, para a apresentação, contratei os músicos, os artistas circenses. Ensaiamos muito, fizemos oficinas… No dia 13 de dezembro de 2003, o Teatro Mágico fazia a sua primeira apresentação.

Re-vista! - O que mudou desde o início do projeto?
Mudaram alguns músicos, alguns artistas circenses. A idéia é ser mesmo essa: flexibilidade, agregar novos valores, novos músicos e artistas. É a amplificação dessa idéia de grande sarau. Nós temos mudado sempre e esse é um amadurecimento como seres humanos e como profissionais. O Teatro Mágico é uma faculdade: aprendemos aqui o que nenhum outro lugar do mundo iria nos ensinar. Pertencer ao Teatro Mágico é rediscutir. Para isso, precisamos nos reciclar, senão, a gente vira cover da gente mesmo.

Re-vista! - No primeiro show, o TM contava com mais de 30 pessoas. Por que hoje há menos raros no palco?
Foi diminuindo para fazer a coisa mais prática. A idéia é sempre estar modificando. Investi no Teatro Mágico, aluguei teatros, fiz divulgação boca a boca, contratei os integrantes… Para manter a excelência, é preciso que outras pessoas participem, que me ajudem a criar outros elenco. É um grande investimento. Por isso, às vezes não dá para ir muita gente. Às vezes sou eu e mais dez. Ou eu e mais cinco. Ou então, pode ser eu e violão. O importante é se apresentar e manter esta pluralidade.

Re-vista! - Há um ideal por trás do Teatro Mágico? Qual?
Romper com monopólio das gravadoras, com a falta de democracia na comunicação. Hoje, o que vemos e ouvimos em TV e rádio já está automaticamente contaminado. Tratam a cultura popular como entretenimento. Quando eu montei o projeto, sempre tive esse ideal de bater de frente. É importante ter um ideal, pois, senão todo o projeto seria só colorido, engraçadinho. O povo espera do artista uma contestação. Ninguém espera isso do padeiro, do cobrador de ônibus. O artista tem de falar, contestar, bater de frente mesmo.

Re-vista! - Agora vamos falar de Fernando antes do Teatro Mágico: qual era seu contato com a poesia, com o circo e com a música?
Sempre gostei muito de artes em geral. Eu era cartunista de um jornal da região de Osasco (SP). Fiz muitas oficinas de teatro e de palhaço. Ia muito a sarais. Tive banda desde os 17 anos e participei de festivais. Aí, com o Teatro eu pensei em misturar tudo isso numa coisa só. Antes, eu também trabalhava em um banco e fazia faculdade de Comunicação Social. Depois, larguei tudo e fui para os EUA. Lá, trabalhei como garçom de dia e tocava música brasileira em shoppings à noite. Voltei com uma graninha e investi tudo no Teatro. Sempre fui muito claro sobre o projeto com todos que participam, músicos e artistas. Depois de dois anos, saí da parte administrativa e burocrática, que ocupava muito tempo. Eu trato o Teatro Mágico com o maior carinho. Agora consegui fazer uma base que sustenta tudo isso.

Re-vista! - O que é tão marcante no livro “O lobo da estepe”, do qual você retirou o nome Teatro Mágico?
É um livro fantástico! Diz que não somos o uno “corpo-alma-carne”, que na verdade somo mil personagens. Só eu sinto medo à minha maneira, só eu sinto alegria à minha maneira. Nós somos todos raros. Só você é à sua maneira. Só você pode chorar do seu jeito, só você pode reivindicar à sua maneira. Não é que sejamos um em um milhão. Somos um milhão em um. A gente tem que se dar liberdade para experimentar. Por isso, o livro me deu base para o projeto.

Re-vista! - Há no Orkut algumas comunidades que criticam a proposta do Teatro Mágico. Como você as vê?
Eu acho que precisamos ter crítica. Eu mesmo fazia caricaturas. Eu votei no Lula para presidente, mas não é por isso que não iria fazer caricaturas dele. Não é porque considero o trabalho de um artista que vou achar que democracia é bater na boca de uma latinha. A crítica é bem-vinda, quando amadurecida e faz sentido. Falar que me considero estrela só porque me visto de palhaço é coisa de quem fica o dia inteiro na internet. Falar que não gosta de mim não tem problema. Não peço que goste de mim, nem das letras, nem do show… Mas é fundamental fazer crítica com conteúdo. Até porque toda unanimidade é burra. Eu sei que o que eu faço não é novidade. Eu adoro o Ney Matogrosso. E o que ele fazia? Se juntava com uns amigos, pintava a cara, cantava e fazia teatro. Isso num grupo chamado Secos & Molhados. A gente só não pode virar cover da gente, tem que renovar. Alguém tem que avisar a alguns artistas para parar de fazer música, pois está tudo muito repetitivo. Tem banda que canta “ooo-i-o-a” e eu não sei se é do primeiro ou segundo disco.

Re-vista! - Como é o dia-a-dia do Teatro Mágico? Como é a preparação dos shows?
Antigamente, a gente fazia oficinas, ensaios… Mas, recentemente, estamos fazendo de 14 a 15 apresentações por mês. Logo, a gente não está tendo tempo nem de ensaiar. Agora, quando eu não estou me apresentando, eu quero ficar só. Quero ir ao cinema, ler um livro. Quando não estou no Teatro Mágico, eu preciso cuidar da saúde, fazer minhas aulas de canto, conhecer mais coisas, mais artistas. Senão, a gente se isola, fica ancorado.

Re-vista! - O Teatro Mágico tem sido comparado ao Los Hermanos por ter um público fiel, que participa muito dos shows, como o da banda de rock. O que você acha dessa comparação?
O nosso público entende na verdade que eles são uma extensão da trupe. O Teatro Mágico não é só um show, é o que ocorre no nosso dia-a-dia. Eles agregam potencial, pois quando você gosta muito de uma coisa, você potencializa. Gosto muito do trabalho do Los Hermanos. E comparação é sempre natural. Quando também me dizem que o Teatro parece Secos & Molhados, Raul, Cordel, Antônio Nóbrega, eu fico feliz. Não tem como não parecer, eu ouvi isso a vida inteira!

Re-vista! - Vocês se apresentam caracterizados como palhaços. Tem gente que reconhecer vocês na rua mesmo assim?
Algumas pessoas já reconhecem sim. Mas tem gente que assiste ao show há três anos e não sabe quem somos nós. O elemento palhaço, por si só, é um espetáculo. O palhaço é um ser disposto. Por isso, trouxe um lema que criei com meu pai: “os opostos se distraem, os dispostos se atraem”. Eu procuro pessoas assim para participar do Teatro Mágico. Pessoas dispostas, que aceitem trabalhar personagens. Pois nós somos personagens.

Re-vista! - Como você avalia o projeto neste momento, olhando para a trajetória do Teatro Mágico?
Eu sei que o Teatro Mágico está só a 10% do que pode ser. Ainda estamos engatinhando, temos só três anos e meio. A idéia é ficar cada vez melhor, amadurecido, responsável. Agora estamos aparecendo mais, mas ainda não é um “sucesso”. É tudo muito bacana, mas lido com pé no chão, pois, ainda tem muito do que aprender. O Teatro pede espontaneidade, paciência, coração aberto… Pede reciclagem de si mesmo constantemente. Apesar de fazer um trabalho lúdico, eu tenho que trazer a lucidez. Mostrar para a trupe que fazer cultura no país é uma guerra. Eu estou lidando como uma trincheira e não sei quanto tempo vai durar. Quando pensei no Teatro Mágico, imaginei uma trilogia (mais dois CD´s), como uma peça de teatro. Ano que vem, vamos lançar “Teatro Mágico — segundo ato”. Depois, vemos o terceiro. Depois disso tudo, não sei o que vai acontecer. Quem sabe não vem um “Retorno do palhaço Jedi”? Vamos ver.

Re-vista! - O CD “Teatro Mágico — segundo ato” já está em fase de gravação? Haverá participações como no primeiro (que contou com Cordel do Fogo Encantado e Simone Soul, por exemplo)?
Já tenho 10 músicas pré-gravadas. Mas estou fazendo este trabalho com muito carinho e cuidado. Terá a participação de um artista do nordeste, Silvério Pessoa, de Arnaldo Antunes, do trombonista Bocatto. E quero convidar novamente a Simone Soul, que atualmente está tocando com os Mutantes.

Re-vista! - O Teatro Mágico pretende tocar em algum lugar especial?
Tocar em Marte! Na Lua! Queremos levar o Teatro para todos os lugares possíveis. Vamos mudando os formatos, adaptando para levar o projeto a todos os lugares!

Fotos: divulgação e http://www.flickr.com/groups/oteatromagico/

Clique aqui para ler a matéria sobre o show do Circo Voador (RJ)

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Uma Resposta »

  1. Conheci o Teatro Mágico este ano, por culpa do Gustavo Jreige (www.outrosolhos.com.br). O trabalho deles é sensacional, uma vez que consegue juntar várias formas de arte em uma apresentação aberta ao público e com participação do público. Aliás, que público? São todos integrantes da mesma trupe.

    Parabéns ao Re-vista! pela excelente entrevista.

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