Entrevista: Móveis Coloniais de Acaju
Por Marina Gonçalves • 2 Mar, 2008 • Categoria: Músicamarina.goncalves@re-vista.info
O nome pode soar estranho para alguns, as letras também. Mas a verdade é que a banda brasiliense “Móveis Coloniais de Acaju” já é uma das mais queridinhas do circuito alternativo, e tem público forte no Rio (onde tocam no próximo dia 5 de junho) e em São Paulo. Em entrevista exclusiva à Re-vista! eles contam um pouco das origens, influências e projetos futuros.
Re-vista!: A pergunta óbvia. Por que o nome “Móveis Coloniais de Acaju”?
BETO: O nome remonta à Revolta do Acaju ocorrido na Ilha do Bananal no século XVII, fato histórico no qual índios e portugueses se aliaram para combater a invasão de ingleses na maior ilha fluvial do mundo. Nesse episódio, em sinal de revolta à invasão inglesa, grande parte da população da ilha quebrou e queimou a produção madeireira (acaju). Com a expulsão dos ingleses, depois de 7 dias de luta inabalável, a revolta ficou conhecida como revolta do acaju.
BORÉM: Fizemos uma homenagem a esse episódio quase ecumênico dos índios e portugueses em oposição aos ingleses na ilha do Bananal, e pouquíssimo explorado da história.
Re-vista!: Como nasceu o grupo? A formação é a mesma desde o começo da banda? Quais são as maiores influências dos músicos?
BETO: O grupo nasceu em 1998. Amigos de colégio e de infância se juntaram e decidiram que iriam tentar tocar e compor música com influência das big bands dos anos 30, do ska, e do rock. A formação atual é de 2005 (com André, voz, BC, guitarra, cavaco e bandolim, eu, na flauta, Borém, gaita e teclados, Esdras, sax barítono, Fabio, baixo, Leo, guitarra, Paulo, sax tenor, Renat, bateria, e Xande, trombone). Hoje, por ser uma banda composta por 10 músicos, as influências são as mais diversas. Creio que a particularidade musical de cada integrante ajuda no definir do som dos Móveis. Influências Músicais: Beatles, Paralamas, Trio Mocotó, Jorge Ben, músicas judaicas, samba, samba-rock…
Re-vista!: Os críticos preferem não definir o tipo de som do Móveis. Vocês se auto-definem? Como?
BORÉM: Nós definimos o nosso som como uma feijoada búlgara. Ou seja, não esclarece nada, mas dá uma idéia da coesão pela diversidade.
BETO: Uma mistura de tudo que é brasileiro com toques da música do leste europeu.
PAULO: Música Muito Popular Brasileira, instrumental (jazz) e nordestina. Sem esquecer o rock, ska…
Re-vista!: As influências do leste europeu são bem presentes nas músicas. De onde surgiu a idéia?
BETO: A idéia veio da influência de outro tipo de manifestação artística além da música. Adoramos o cineasta Emir Kusturica, nascido na antiga Iugoslávia e diretor de filmes como “Underground”, “A vida é um Milagre” e “Black Cat, white cat”. Ele tem um banda chamada Emir Kusturica and the no smoking orchestra que incorpora música dos balcãs para criação de trilhas sonoras de filmes. É demais! Além disso, a família do guitarrista e trombonista é judaica e eles sempre trazem pra banda a influência de escalas do klezmer.
BÓREM: As influências do leste europeu não são mais especiais que as outras influências: talvez só causem mais estranheza pela diferença e por estarem mais evidenciadas nesse disco. De qualquer maneira, nossas influências são reflexo de nossas experiências, descobertas estranhas (garimpadas na internet, lojas ou casa de amigos), filmes, arte, cotidiano, tudo serve de referência.
Re-vista!: Outra característica marcante dos Móveis são as letras, bem humoradas, sátiras, em alguns casos. Elas refletem vocês no dia-a-dia?
BÓREM: Assim como as influências sonoras, as letras, sim, nos refletem (ou ao autor especificamente da letra); não no sentido de ser autobiográfica - o que às vezes pode acontecer - mas no sentido de estarmos atentos ao que acontece com as pessoas. Assim, trabalho, frustrações, novamente o diálogo com outras formas de arte, episódios que aconteceram conosco ou com amigos.
Re-vista!: O sucesso em Brasília já é estrondoso, e a banda vem sendo aclamada como uma das maiores dentro do chamado circuito alternativo. Esse é o lugar do Móveis? Ou interessa estar no topo das paradas?
BETO: O lugar dos Móveis é onde o público estiver. Não importa se for numa festa de 15 anos ou num festival gigante como o MADA ou o Porão do Rock. A gente começou tocando em lugares minúsculos e pra pouquíssima gente. Fomos crescendo bem devagarinho e acho que foi daí, depois de muito tempo fazendo um trabalho de base, que a gente chegou onde está. Ainda tem muito o que trabalhar. O importante é ter o trabalho apreciado e reconhecido. Se isso acontecer, o topo das paradas é consequência e não a finalidade.
BORÉM: Acredito que para a gente interessa fazer o trabalho que acreditamos ser relevante artisticamente. O sucesso é decorrência de muito trabalho e de uma identificação que não está completamente ao nosso alcance, assim se quiserem colocar-nos nas rádios, nos programas de TV, em trilha de novela, adoraríamos.
PAULO: Nos interressa estarmos felizes tocando, o resto é conseqüência. Sabe, comparamos muito nossa convivência dentro e fora do palco como um time e o show como uma partida de futebol: estamos treinando bem, só esperamos um dia ser como a seleção de 70 ou 82 (a melhor mesmo sem ganhar o título)!
Re-vista!: Há diferença do público dentro e fora de Brasília? Como é a receptividade em gandes centros, como Rio e São Paulo, por exemplo?
BETO: Hoje em dia, tanto no Rio quanto em São Paulo a receptividade é linda. Ao começarmos a tocar, parece que conhecemos o público há anos e nossa intimidade é extrema. Demais! Brasília não fica atrás, já que é nossa casa e o público sempre nos apoiou desde pequenininhos.
PAULO: Sempre boa a receptividade, mas em Brasilia tem um parada toda especial pois há muita gente que segue a Banda desde o inicio e ainda hoje mantêm a mesma forma de carinho. Nós procuramos retribuir.
BORÉM: Hoje podemos dizer que temos um público em São Paulo e no Rio!
Re-vista!: O primeiro CD foi lançado, com sucesso. Já existem novidades vindo por aí?
BETO: Estamos em fase de produção de novas composições.
BORÉM: Estamos acabando a pós-produção de um compacto em vinil em parceria com o Gabriel Thomaz (guitarrista do Autoramas). É uma releitura de músicas de bandas lendárias de Brasília: Little Quail (da qual o Gabriel fazia parte) e Câmbio Negro. O compacto terá o sugestivo nome de “Vai Thomaz no Acaju” (hehehehee). Além disso, estamos em processo de composição e pré-produção do nosso segundo disco.
PAULO: Já tocamos algumas músicas novas nos shows e já começamos a ouvir principalmente em Brasilia uma galera cantando o refrão e tal. A idéia é gravar tudo ainda este ano!
Beto Mejía é flaustista, Eduardo Borém é tecladista e gaitista, Paulo Rogério é saxofonista.
Marina Gonçalves
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