Especial Parintins: A Festa da Ilha Encantada da Amazônia
Por Luana Dias • 2 Mar, 2008 • Categoria: EspeciaisDia 29 de junho, por volta das 20h, sensação de aperto no peito, nó na garganta, queixo caído, não exatamente nesta ordem. Até os corações e mentes mais preparados não conseguem escapar da onda de efeitos colaterais ocasionados pela emoção de presenciar os minutos iniciais do primeiro dia de apresentação oficial dos ‘Bois’, no Festival Folclórico de Parintins. Mesmo aqueles que já têm os olhos acostumados à grandiosidade do carnaval do Rio, se surpreendem. Isso porque, depois dos primeiros minutos de festa, é fácil perceber que as semelhanças entre estas duas manifestações culturais se restringem à origem popular e sua posterior espetacularização. Ao som de toadas e cantos indígenas, Parintins se singulariza ao apresentar em plena selva amazônica um espetáculo com três dias de duração, que revela de forma fantástica as figuras e o imaginário da região.
O Bumbódromo – uma gigantesca arena, que se transforma em anfiteatro amazônico a céu aberto – tem suas arquibancadas divididas em dois setores: um ‘vermelho’ reservado ao Garantido e outro ‘azul’, que representa o Caprichoso. O radicalismo é tanto que até empresas multinacionais trocam as cores de suas logomarcas, tais como a Coca-Cola e a Tim, que “azulam” no lado do Caprichoso. As ‘galeras’ – como são chamadas as torcidas – nunca se misturam: por enquanto um dos ‘Bois’ se apresenta na arena, os torcedores do ‘contrário’ ficam completamente no escuro, em silêncio, não podendo se manifestar de nenhuma maneira. Com coreografias ensaiadas e as toadas novas e antigas na ponta da língua, eles são um dos itens (quesitos) importantes na nota final dos Bois e vibram durante as duas horas e meia de apresentação por dia.
Com origens do bumba-meu-boi maranhense, trazido pelos imigrantes que vieram trabalhar na extração da borracha, os boi-bumbás de Parintins se diferenciam pela mistura com elementos da cultura amazônica, que permeiam a vida do ‘caboclo’. A história na sua essência é a mesma contada no folclore nordestino: grávida, Mãe Catirina, mulher do caseiro, tem o desejo de comer a língua do Boi mais bonito da fazenda. Pra satisfazer a esposa, Pai Francisco manda matar o animal preferido do patrão. É neste momento que a história ganha sua versão regional: no lugar de um médico, um pajé é convocado para ressuscitar o Boi. Também dentro do contexto amazônico, são acrescentadas à história a Cunhã-Poranga (mulher mais bonita da aldeia), a Rainha do Folclore e a Porta-Estandarte como itens femininos regionais, além das Tribos indígenas e dos ‘Tuxauas’, uma espécie de destaque luxuoso de chão.
Durante os três dias do Festival, entram em cena também as histórias que permeiam o imaginário amazônico. Em alegorias – formadas por módulos que se encaixam e se transformam em cenários gigantescos – são contadas lendas, rituais e se exalta a trajetória de personagens regionais. Aí, a imaginação do artista parintinense não tem limites: são árvores que ganham vida; morcegos negros que sobrevoam a arena e são vencidos pelo pajé; batalhas entre monstros e guardiões que habitam o imaginário amazônico, uma escultura gigantesca de Chico Mendes, que entra andando na arena, entre outras surpresas. Os espíritos da floresta são evocados pelos cantos do levantador de toadas e o rufar dos tambores dos 400 ritmistas, que ganham o nome de Batucada, no Garantido e de Marujada, no Caprichoso.
Em meio a tanta engenhosidade e luxo, a figura simples do ‘Boi’ ainda é o grande destaque da festa. Protegidos por suas vaqueiradas, o Boi branco, do Garantido e o Boi negro do Caprichoso encantam a todos com seus rodopios e giros coordenados pelos seus ‘tripas’ – homem que dá vida ao animal. O Boi recebe os carinhos e a comida da Sinhazinha e suas virtudes e tradições são exaltadas nos versos, declamados por seu Amo.
Com alegorias magistrais, coreografia bem ensaiada e valorização dos itens regionais, o Boi Caprichoso consagrou-se campeão da edição 2007 do Festival, quebrando uma seqüência de três campeonatos de seu rival, o Garantido. Porém, independente da disputa, o maior legado de Parintins proporcionado aos visitantes é mesmo o fator emoção. A ponto de fazer a jornalista mergulhar num devaneio, protagonizado pelo maestro Carlos Gomes. Se o autor da ópera Guarani ainda fosse vivo, escreveria uma obra monumental, inspirada na energia contagiante desta manifestação folclórica. Um novo Guarani, ao som de toadas e no compasso das “palminhas”.
Fotos de Anne Morata e Luana Dias
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