Maria Antonieta
Por Tai Nalon • 2 Mar, 2008 • Categoria: CinemaUm delírio. Um delírio adolescente. Talvez isso resuma bem qual a essência do novo brinquedinho de Sofia Coppola. Sim, brinquedinho. Não posso considerar “Maria Antonieta” um filme em sua plenitude.
Um filme consiste de uma história a contar a partir de um roteiro minimamente amarrado e com o propósito de desembaraçar os fios embolados de uma narrativa intrigante. Um filme não precisa ser necessariamente estético, mas necessita, em geral, preencher moldes de fotogenia de maneira adequada, sem serem essenciais aqueles grandes arroubos de câmera. Um filme precisa, definitivamente, mostrar ao público a que veio e, para ganhar a crítica, mostrar muito além do que está projetado no telão. Embora Hollywood quebre essas regras de vez em sempre, jamais poderia imaginar que a Sofia Coppola de “Virgens Suicidas” e “Encontros e Desencontros” poderia fazê-lo em seu filme de maior exposição, maior orçamento e maior pretensão.
A produção, que foi capa da Vogue por seu figurino revolucionário e que figurou como destaque em trilha sonora nas revistas especializadas de música, deixou a desejar em qualquer um desses itens que Sofia soube bem vender. Para transformar a rainha degolada em um ícone pop, a queridinha do papai pensou ser suficiente colocar umas quatro ou cinco músicas bacanudas do The Cure e dos Strokes e apelar por uma estética etérea de loja de doces [que, na verdade, não é nada tão extraordinária assim]. Mas o que ela não percebeu é que, para se tornar uma espécie de Moulin Rouge II, a missão, ter uma narrativa objetiva é o que interessa.
“Maria Antonieta” é uma releitura da vida da polêmica rainha historicamente culpada pela derrocada da monarquia francesa. Traçando sua trajetória desde a adolescência até seus últimos momentos de vida, Sofia pretende uma abordagem intimista e inovadora, permitindo-se também a certas frivolidades mais densas. No entanto, é tudo realmente tão pouco transparente que é difícil dizer quando na verdade conseguimos ver além de vestidos, bolos, festas e uma negligente perspectiva do que é ser um jovem moderno. Em vez de ser um hino cult, “Maria Antonieta” não passa de mais um épico com jeitinho pós-moderno falido. A Maria Antonieta de Kirsten Dunst até tenta ser alguém, coitada, mas se perde entre os diversos ninguéns que a diretora pretendia incorporar na personagem. A caricatura vazia da rainha obviamente comparada aos nossos ninguéns de hoje em dia não convence sequer os mais românticos.
É irônico pensar que o delírio adolescente da jovem Coppola tenha se assemelhado tanto ao da Rainha ao gastar tanto com tão pouco. Posso até enxergar um certo conflito histórico ultra-dimensional: Sofia e Maria Antonieta curtindo suas orgias financeiras juntas, sem qualquer outro propósito senão brincar sem medo de macular o status. E não temos sequer uma revolução cinematográfica para salvar Hollywood do atoleiro. Guilhotina nelas!
Sofia Coppola, 2006, Columbia Pictures, EUA
Tai Nalon é uma pessoa inquieta.
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