Sexo com reis - Eleanor Herman
Por da Redação • 2 Mar, 2008 • Categoria: Literatura
Que as cortes ocidentais nunca foram território de seres púdicos todo mundo sabe. Freqüentar festas de Luís XIV ou Carlos V estava longe de ser garantia de sair com as saias no mesmo lugar em que estavam inicialmente. Sair das mesmas de barriga cheia – em ambos os sentidos – era, na verdade, motivo de orgulho para qualquer jovem um pouco mais ambiciosa do que o normal. No entanto, historiadores de todo o mundo mantiveram o bico calado quanto a isso durante todo esse tempo, à revelia dos bons costumes. Seria mesmo impossível que, com um bom par de peitos, mulheres poderiam fazer grandes estragos nas riquíssimas cortes absolutistas e, além, nos corações de seus soberanos? Eleanor Herman diz que não.
Em uma obra de 272 páginas, a jornalista norte-americana enumera diversos fatos interessantes sobre a vida das amantes dos mais ilustres reis europeus em mais de 500 anos de História. Agora, jovens bem nascidas não mais recebem o título de meretrizes, mas de amantes reais oficiais – ou maitresses en titre. Madame de Pompadour, Gabrielle D’Estrés, Lady Castlemaine, Louise de Kéroualle, Agnes Sorel, entre muitas outras preferidas, têm episódios de sua vida na corte narrados com acidez por Herman, através de capítulos dividos em temas que centram atenções em suas relações com o rei, com a corte, com a rainha e com o povo.
“Sexo Com Reis” assume deliberadamente sua posição de manual de fofocas reais quando revela sua prerrogativa máxima, que é lembrar que os instintos luxuriosos do ser humano estão presentes nos mais diversos estratos sociais. Dessa forma, delineia em forma de documentário alguns dos momentos mais constrangedores da vida da Europa Absolutista, abordando com singularidade a tendência à ridicularização do ser humano quando em busca do prazer a todo custo. Tudo isso, é claro, com uma naturalidade contundente, que satiriza aqueles que, à sua época, jamais poderiam ser satirizados.
É com gosto que Herman narra as aventuras de Madame de Montespan e daqueles à sua volta, sendo ela provavelmente a amante mais voluntariosa de todas: “Embora o marquês certamente tivesse conhecimento da posição elevada da mulher como amante do rei, no início não causou problemas. Talvez esperasse ansioso as recompensas financeiras e as honrarias que poderia receber em troca. Quando voltou a Versalhes, em 1668, encontrou a esposa grávida do rei. Ainda pior, Madame de Montespan, como um cortesão observou, ‘ao gostar das carícias do rei, desenvolvera rejeição pelo marido’. A reação enlouquecida do marquês foi típica de seu temperamento. Vociferava com qualquer pessoa disposta a ouvir sobre o caso imoral do rei com sua esposa – embora muitos pensassem que essa nova beatice era inusitada em um homem conhecido por ter assaltado conventos para deflorar moças”. Diante desse cenário, é puro veneno a documentação sensacional de Eleanor Herman a respeito do envolvimento de Madame de Montespan com bruxaria para afastar a concorrência.
Madame de Pompadour também aparece, mas com traços ligeiramente mais nobres. Segundo a autora, a amante de Luís XV “usou sua influência com Luís para demitir altos funcionários que a enfrentavam resolutamente e substituí-los por seus amigos. Seu primeiro passo foi demitir o tesoureiro que demonstrara desagrado com sua extravagância e substituí-lo por um amigo que pagava imediatamente suas contas sem questionamentos. Logo, Madame de Pompadour controlava as valiosas concessões de pensões, títulos, honrarias e posições na corte”.
A partir de pesquisa histórica apurada, Eleanor Herman mostra desenvoltura em andar no limite entre a futriquice adúltera cristã e a imoralidade; entre os casamentos arranjados e os amores proibidos; entre o hedonismo e a promiscuidade. Também exacerba, com louvores, a resposta humana à supressão dos seus instintos, delineando o caráter nem tão absoluto dos mais influentes monarcas e, supostamente, daqueles que continuam a fazer a História que conhecemos – ou seja, nós mesmos.
Tai Nalon
da Redação
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