mimbo

Chega de saudade

Por Luciana D'Aulizio • 13 May, 2008 • Categoria: Cinema

Um salão de baile que reúne veteranos de salão com ruguinhas à mostra, mas cheios de vida, como Alice (Tônia Carrero), Álvaro (Leonardo Villar), Eudes (Stephan Nercessian), Marici (Cássia Kiss), Elza (Betty Faria) e ainda os calouros Bel (Maria Flor) e Marquinhos (Paulo Vilhena). Este é o cenário em que se passa “Chega de Saudade”, de Laís Bondanzki.

Ao contrário do que acontece em filmes como “Vem dançar comigo” , o objetivo da cineasta não é fazer uma história sobre dança e, sim, sobre a vitalidade na maturidade. Prova disso são os enquadramentos escolhidos por Walter Carvalho, que privilegia muito mais closes do que planos abertos, utilizados para mostrar coreografias. Em “Chega de Saudade”, a lente de cores vivas do fotógrafo circula pelo salão em busca de detalhes, entre eles sapatos de dança, pés como instrumentos de sedução ou acompanhando a melodia tocada, e até mesmo marcas de expressão.

A opção da cineasta por focar nos bailes de Terceira Idade pode despertar um gostinho de “falta alguma coisa” ou até mesmo estranhamento na nova geração de pés-de-valsa, interessada em coreografias com passos de efeito e acostumada a frequentar em ambientes bem diferentes, com um estilo mais “fashion”, seguranças na porta, e onde não são encontrados com tanta freqüência personagens, como o cavalheiro de aluguel.

No entanto, até mesmo os mais jovens se identificam em situações com as quais nos deparamos nos bailes de dança e da vida, principalmente as mulheres. A alegria de ser cortejada e virar centro de disputa tácita ou escancarada de dois corações apaixonados. O friozinho na barriga ao vislumbrar a possibilidade de um relacionamento depois de tempos de solidão. A decisão de chegar junto do cavalheiro almejado e confessar um amor evidente, mas secreto. A revolta por ser traída. O contentamento por dar troco à rejeição. A excitação motivada por olhares certeiros, toque calorosos e pela conquista. A tentativa de se insinuar para chamar a atenção do sexo oposto. A frustração de ficar de molho na cadeira por falta de convites. A tristeza de se arrumar para ser vista e nem ser notada. O gosto amargo de ver a pessoa de quem se gosta encantado por alguém mais atraente.

Sendo assim, a história de Bondanzki tem o mérito de explorar a figura feminina em um meio que, volta e meia, direciona os holofotes para os cavalheiros, seja por serem os responsáveis pela condução da dama, os concretizadores da conquista ou mesmo o grupo em menor quantidade no salão, que pode se dar ao luxo de escolher quem dançará e quem tomará “chá de cadeira”. Justamente por tratar com precisão estes dramas femininos, o filme deve ser referência obrigatória para os “fominhas de salão” que pensam que colocar-se no lugar da parceira é saber como executar os passos delas, sem atentar para os sentimentos reunidos no imaginário da dama. Um universo particular acessado a cada abraço que inaugura uma dança.

Todos estes fatores por si só já seriam razões para ver “Chega de Saudade”, mas não o principal mérito do longa-metragem. Sem dúvida, seu diferencial é apresentar a Terceira Idade de forma menos sisuda e mais verossímil. Uma geração que soma anos de vida e não vê a chegada dos cabelos brancos necessariamente como a proximidade de um fim eminente. Pessoas que se permitem viver amores e, mesmo na maturidade, ainda sentem o coração acelerado e ficam ansiosas a cada troca de olhares, como pré-adolescentes. Pessoas que se permitem ter relacionamentos abertos e romances tórridos de uma noite só, como os jovens de hoje. Pessoas que relembram e redescobrem a juventude no salão e, por isso, passam a freqüentá-lo religiosamente.

A temática é mais do quem bem-vinda levando-se em conta o aumento de praticamente 32,4% da expectativa de vida do País, desde 1960 a 2006, segundo dados do IBGE. O fato anuncia a necessidade de tornar mais freqüente e aberto o debate de assuntos relacionados a esta faixa etária, entre eles formas de viver a sexualidade com prazer e segurança na maturidade – discussão mais do que propícia, tendo em vista o crescimento do número de idosos com Doenças Sexualmente Transmissíveis e AIDS.

Não é à toa que as salas que exibem o filme estão repletas de idosos, ansiosos por verem uma trama na qual têm destaque e não aparecem estereotipados como “os fofos” ou “os abandonados pela família”. Com um elenco de primeira, o filme apresenta personagens reais, nem sempre impecáceis moralmente. Dá voz ao conquistador que corteja uma garota mais jovem e comprometida, enquanto garante companhia para a noite com uma amiga de baile; ao homem que finge não ser casado para se aventurar com outras damas; à mulher que trai e à que faz jogo duro, sem esquecer de pontuar sutilmente problemas como o Alzheimer ou o medo da morte.

Que “Chega de Saudade” seja um ponto de partida para a valorização do rico universo da maturidade, tanto nas telas, nos bailes, como no dia-a-dia.

Veja o trailer do filme:

Tags: , ,

Leave a Reply