Dicionário pai d’égua belemense
Por da Redação • 18 May, 2008 • Categoria: JanelaDaniele Torres –carioca, museóloga e produtora cultural– mudou-se para Belém (PA) e está descobrindo como os nortistas levam a vida. Na Janela desta semana, veja como enlouquecer convivendo com jacintas, carne picadinha e osgas. Todo dia.
Morar em outra cidade brasileira, quando a distância é grande do ponto de origem, nos faz confrontar com as diferenças de costumes e, principalmente, de vocabulário.
Já comentei a amigos que meu diálogo com a nossa “auxiliar de assuntos gerais” de vez em quando é interrompido por uma incompreensão de uma das partes, em função de alguma palavra desconhecida. Aconteceu com o cabide, que é chamado aqui de cruzeta e por aí vai… Eu me divirto com isso, honestamente.
Resolvi então montar um pequeno dicionário pra vocês sentirem as diferenças. Vejam:
· Os insuportáveis MOSQUITOS cariocas são conhecidos no norte do Brasil como carapanãs. Constam assim nas embalagens de repelente, inclusive;
· A boa e velha LAGARTIXA, além de ser chamada aqui pelo esquisitíssimo nome de osga, é comumente “assassinada”. Aqui, acredita-se que ela também ataca seres humanos e chupa sangue! Por isso são mortas tal qual barata: a chineladas. Achei que fosse conversa da doméstica aqui de casa, que é mais interiorana, mas quando chamamos uma empresa de dedetização, o rapaz que fez o serviço veio com a mesma conversa;
· As simpáticas LAVADEIRAS que também são conhecidas como “louva-deus” no Rio, são curiosamente chamadas de jacinta por aqui;
· Nos mercados e açougues de Belém não é possível comprar CARNE MOÍDA, ainda que possuam moedor de carne. É que se você pedir assim o atendente fica te olhando como quem vê um alienígena. Carne moída aqui é carne picadinha, tão moída como qualquer outra, mas eles não a chamam assim.
Além dos nomes diferentes, existem as expressões que também causam estranhamento a nós, forasteiros. Uma expressão muito comum usada pelos belemenses é “pior”. Tudo é “pior”! Porém, não no sentido de coisa ruim. Não necessariamente… É equivalente ao “puxa” ou do “putz” ou do famoso “pô” carioca. Uma exclamação: “Pior!”.
E já falei pra vocês do famosíssimo “égua!”?! É outra exclamação muito, muito usada por aqui. É uma gíria típica do paraense, que inclusive dá nome a locais, é usada em estampas de camisetas para turistas… Já tentei investigar de onde veio a expressão, qual sua origem, mas o máximo que descobri é que ela já é a redução de “pai d’égua”, expressão original. Contudo, não há consenso de onde veio ou como começou o “pai d’égua” por aqui. O que sabemos é que ambas expressões são ainda muito usadas para definir uma coisa boa. Por exemplo: uma rede de supermercados usa em sua campanha publicitária o bordão “promoção pai d’égua”, o que quer dizer que é uma promoção danada de boa, imperdível, excelente… Mas o “égua” sozinho, como virou uma exclamação mais genérica, serve também para coisas ruins. Se alguém der uma topada na rua ou se você contar uma notícia ruim para um belemense, certamente vai ouvi-lo dizer “ééégua!”.
Outra palavra que eu ainda não entendi bem o sentido, pois já ouvi vários usos é o “arredar”. Você vai puxar alguma coisa? Então, vai “arredar”. Se você for aprontar, fazer, resolver, limpar… Tudo pode virar “arredar”. Exemplo: arredei o banco daquele local. Exemplo dois: vou arredar a geladeira (no sentido de limpar e arrumar mesmo). Doido, né?
E tem ainda os nomes de lugares que acho impagáveis. Você já imaginou morar no bairro “Telégrafo sem fio”? Pois é, aqui em Belém tem e é chamado carinhosamente de “Telégrafo” para os íntimos. E qual será o nome dado a quem nasce em “Além Quer”? Pois é, temos uma cidade com este nome no Pará.
Falando em nascer… Quem nasce em Belém é conhecido como belemense (com M) ou belenense (com N). Descobri que os dois usos são possíveis e corretos. Vocês devem ter reparado que uso os dois, inclusive. Mas os belemenses têm outro apelido: papa-chibé. Todo mundo que nasce aqui é chamado assim. Chibé é farinha, coisa que a população local realmente usa muito. Parece que a brincadeira tem origem indígena também… Contudo, quando penso que a minha filha será uma papa-chibé perco a inspiração para continuar escrevendo… Ai, ai, meu coração carioca partido! Ai, ai…
Sendo assim, como boa carioca, FUI!
da Redação
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Olá, carioca. Eu sou paraense vivendo entre Rio de Janeiro e Espírito Santo. Tenho uma dica pra vc entender algumas palavras, busca um dicionário de português de Portugal e outro indígena, daí vc vai sacar algumas coisas. Outra dica: Alenquer (e não alem quer), assim como diversas cidades paraenses, tem nome replicado de cidade/vila portuguesa (dada a colonização, pois). Jogue no wikipedia Alenquer e veja se eu estou mentindo. Não se preocupe do que será chamada sua filha, te digo que não se apoquente. Eu nasci em Santarém e as pessoas de lá são pejorativamente chamadas de mocorongas. Mas nem por isso, eu sou uma abobalhada como o sentido da palavra. Boa sorte pra ti.
Oi Carioca, tb sou paraense. Mas tô morando no Rio Grande Sul, fazendo a pós-graduação. Nas minhas andanças pela NET (estudo Internet), achei esse teu artigo. Legal, pq mostra, realmente, o quanto pode ser espantosa a cultura brasileira e suas especificidades. O bom é isso… e estar aberto para isto é melhor ainda (falo isso por experiência própria). Mas como boa paraense quero contribuir com as suas descobertas para que sejam melhores ainda:
As simpáticas LAVADEIRAS que também são conhecidas como “louva-deus” no Rio, no Pará, são ponha-mesa e jacinta é outra coisa. Aliás, qdo eramos crianças tinhamos um amigo que chamávamos Edu- jacinta. A cor dos olhos do Edu era verde e ele bem magrinho. Estou dando a dica para qdo vc encontrar uma jacinta voando pela rua saber identificá-la…rsrsrsrsr
A boa e velha LAGARTIXA, nunca foi “assassinada” em casa. Afinal, eles comem carapanã…daí, são bem-vindas. Falando em bem-vindas, elas vieram para o brasil na época da escravidão, nos chamados navios negreiros, e se adaptaram de tal forma que hoje não há uma casa no País que não tenha uma osguinha que seja…apesar de q, a que havia aqui onde moro nunca mais apareceu…gostava tanto dela, até a chamava de Rose.
Agora, qto a ser papa-chibé, realmente, é um privilégio só de verdadeiros paraense que sabem o qto é gostoso comer peixe, feijão, tomar um bom açaí com aquela dose de farinha bem torradinha….ai que saudade que dá!!!!!!
Abs
Claudia