Lado B: Do outro lado…
Por Zaira Brilhante • 20 May, 2008 • Categoria: Coluna Esquerda, Colunistas
Essa deve ser a coluna de número 5532 que eu escrevo pra esse espaço, mas estranhamente sinto como se fosse a primeira. Pensei até em mudar o nome dela, por achar que precisava começar do zero e também por considerar “Lado B” um tanto démodé agora, mas desisti quando nada melhor me ocorreu. Já era tarefa árdua demais escolher um assunto pra discorrer. Mas, pra minha surpresa, não demorei muito a me decidir. Vamos falar da vida do lado de cá do oceano. Deixa o B no mesmo lugar, mas troquemos o Brasil pela Britain que me acolheu.
Pros desatualizados, explico: estou em Londres. Morando em Londres. Vivendo o dia-a-dia de Londres. Tendo que encarar coisas como café da manhã com sausage, feijão e bacon (mentira, ainda resisto!) e bebendo cerveja quente de meio em meio litro (a famosa pint!). Vou deixar esta cidade, no entanto, pra outra conversa. Agora quero falar de Brasil, mas do Brasil que não ganha as manchetes. Um Brasil difícil de entender, mas fácil fácil de se orgulhar. Um Brasil feito daquele tipo de brasileiro que sabe como ninguém aproveitar cada detalhe, cada pedacinho, cada grão de sorte que encontra pelo caminho.
Cosmopolita como nenhum outro lugar deve ser, Londres reúne gente de todas as nacionalidades que você pode imaginar e algumas que sequer sonhou em conhecer um dia (afinal, com quantos nepaleses você pensou em trabalhar um dia? E Macedônia, sabe onde fica no mapa? Já pensou em estudar com alguém da Letônia?).
Conviver com diversas culturas é interessante. A troca é fantástica. Mas o melhor disso é reconhecer, ao comparar nosso povo com tantos outros que encontramos, como o brasileiro é fantástico. Por quê? Agora chego aonde queria desde o começo desta coluna, listar as qualidades tupiniquins que só nos damos conta quando ficamos frente a frente com exemplos assim. Desde pequenos os brasileirinhos que têm condições financeiras de sustentar isso, claro, aprendem que é preciso estudar inglês. Na adolescência, alguém explica que espanhol também será imprescindível daqui pra frente. E, ao entrar na faculdade, pronto, ele descobre que seria bom também começar a se dedicar ao francês. O mercado de trabalho bateu à porta e logo seu chefe explica como seria bom ter algum conhecimento de uma língua asiática.
Daí esse ser humano com 20 e poucos anos chega ao Reino Unido pra continuar seus estudos. Quer fazer “mestrado no exterior” porque é mais uma linha colorida pro currículo. Chegando aqui ele dobra o diploma em quatro e vai limpar o banheiro daquele inglês que, ao ouvir que você é brasileiro, te saúda: “Hola, como estás? Muy bella!”. Mas o brasileiro, como a gente está cansado de saber, não desiste nunca. E ainda consegue sair dessa com um sorriso de orelha a orelha. Agora me diz, como não se orgulhar? O brasileiro tem a mania de se esforçar, de dar o seu melhor, seja pra ser doutor ou pra ouvir depois de limpar 300 banheiros de estádio que fez um trabalho muito bom. O brasileiro que é brasileiro e se orgulha de ser brasileiro não faz corpo mole, não tira vantagem, não enrola.
O brasileiro que é brasileiro vai voltar pro Brasil e dizer que fez mestrado na Europa, que foram os melhores anos de sua vida, mas que graças a Deus (porque no Brasil a gente ainda acredita em Deus), está de volta à terra adorada, porque entre as outras tantas mil que teve a chance de visitar, apenas uma ele pode chamar de “pátria amada”.
Zaira Brilhante
Mande e-mail para este autor | Todos os posts de Zaira Brilhante

