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Submundo

Por Bruno Accioly • 12 May, 2008 • Categoria: Cinema

William H Macy faz escolhas estranhas para papéis esquisitos, mas no caso de “Submundo” (2005) sua decisão por interpretar um sujeito que é demitido, enlouquece, se separa da esposa e começa a percorrer a cidade em uma orgia de situações insólitas, parece, estranhamente, fazer todo sentido do mundo.

Não fosse o tom onírico imposto nesta obra televisiva, o espectador teria mais chances de se envolver literalmente com o filme, o que seria uma lástima para o ruído de fundo que é a cacofonia de comentários aparentemente incongruentes e desconexos que a personagem arrulha enquanto se engaja em práticas cada vez mais auto-destrutivas, rebeldes e hostis, sempre com o pé atrás do covarde que tem espasmos de coragem doentia.

A jornada anti-erótica empreendida por um americano médio – que não deixa de ser pequeno – retratado como um grande reacionário, confunde a realidade da história com o desejo de potência do personagem, o protótipo do racista homófobo que impõe a culpa do próprio destino no sucesso das minorias que sua própria classe oprime.

Onde termina a fantasia perversa e começa a realidade lastimável da personagem fica difícil dizer, mas não serão poucos os espectadores que verão ali apenas um louco literal, no lugar da denúncia conotativa da degeneração de todo um continente – quiçá de toda uma civilização.

O roteiro de David Mamet e a direção de Stuart Gordon se ajudam, em “Submundo”, para torná-lo um clássico menos acerca do totalitarismo ideológico que uma constatação das conseqüências do pragmatismo filosófico e da relatividade moral de toda uma sociedade.

Edmond Burke, um medíocre morador anônimo de uma cidade mais anônima ainda, foi demitido e, sentindo profunda necessidade de ruptura com a realidade de sua vida, perfaz o gesto simbólico de largar a esposa que já não amava. Encontra um estranho em um bar, onde resolve afogar as mágoas na bebida, um quase alter-ego que só faz acentuar-lhe a sensação contra-existencialista de que a responsabilidade de sua situação não é dele e de que este devia procurar refúgio em seus desejos, suas vontades e nos excessos hedonísticos que só A Cidade pode propiciar.

É uma ciranda além do espelho, aquela pela qual Burke passa, com cartas de tarô fugidias e estrategicamente dispostas diante dos olhos de sua imaginação, uma meta-linguagem que ressalta o fato de que ele mesmo entrega o destino a algo que lhe é imposto e que está completamente fora de seu controle.

“Submundo” é raro tanto pela denúncia quanto pelo formato, que entrega, em plena televisão, veículo que é símbolo da alienação: uma bofetada em um espectador inerte em sua poltrona e que talvez sequer tenha condições de perceber a dor que já nem lhe enrubesce a face.

Burke não é um monstro, mas é disforme… ele é aquele espectador que olha para ele, para além do espelho e não se reconhece, e que não sabe mais se rebelar. Um gorila retirado da selva e que acha que a floresta não é mais que um sonho distante. Sem a possibilidade de bater aos peitos enquanto urra a plenos pulmões, a personagem vaga pela ilha de si mesmo como um Senhor das Moscas, uma criança mal educada pela TV e que, bipolar, chora enquanto desfere golpes para todos os lados sem o efeito desejado que é mudar de lugar.

A revolução talvez seja televisionada, mas será levada a cabo como golpe publicitário do Estado, como parte d`O Processo, e as massas não serão mais que meras espectadoras apáticas que sequer vão se permitir enlouquecer como Edmond Burke, terminando como ele presas e ensimesmadas, encarando o abuso como vitória e beijando a boca do opressor com o sorriso de quem acha que fez a escolha certa… com a ilusão de que fez alguma escolha…

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