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Vida longa aos gardelianos

Por Luciana D'Aulizio • 28 May, 2008 • Categoria: Música, Teatro

Gardelito se foi há 73 anos, mas sua obra continua viva, encantando diversas gerações de tangueiros. Neste final de semana, todos os admiradores do francês que revolucionou a história da música argentina terão um banquete para os olhos e os ouvidos. Será apresentado no Teatro Dercy Gonçalves, no Grajaú Country Clube, o espetáculo “Carlos Gardel – a legenda do tango”, que faz um panorama da vida do intérprete e da história do ritmo através da música e da dança. A atração é dirigida pelo cantor de tangos e boleros Don Américo e conta com a participação da cantora Therezynha Sylva e dos dançarinos do Centro Cultural Conexão, escola tijucana de dança de salão.

Reconhecimento pelos hermanos

Esta não é a primeira vez que Américo leva ao palco músicas com letras passionais que se materializam em ganchos, caminhadas, giros e tantos outros movimentos, executados com precisão e delicadeza por homens e mulheres trajados com elegância ímpar. O hábito de cantar tangos começou como hobby do então empresário, que passou a colecionar críticas positivas por onde passava, inclusive na terra em que o ritmo ganhou fama. “Já fui oito vezes à Argentina, mas até hoje lembro com carinho de uma apresentação no ‘El rancho del Uchoa’. Tamanha foi a receptividade que os próprios hermanos me deram o apelido de Don (expressão que significa senhor em castelhano) Américo”, conta.

No Rio de Janeiro, o intérprete já esteve em cartaz, em 2006, com “Buenas noches”, que reunia tangos e boleros. A atração foi levada a alguns teatros e agremiações da cidade, sempre com boa resposta por parte do público, garante Américo. De acordo com ele, o ritmo argentino tem grande apelo, apesar de raramente figurar na programação cultural. “Encontramos vários espetáculos musicais, mas a maioria está focada em samba, rock e MPB. Se existir uma atração de tango a cada 20 é muito. Por isso, quando aparece alguma, as pessoas fazem questão de prestigiar”, diz.

Prova deste afã dos cariocas pelo tango foi dada quando “Buenas Noches” passou pela Sala Baden Powell, em 2006. Na ocasião, mesmo com divulgação inexpressiva e em pleno domingo de Páscoa, o espaço ficou lotado para assistir Don Américo e seus e dançarinos em cena. O “grand finale” da performance, conta o cantor, foi uma longa salva de aplausos. “Todos ficaram entusiasmados, como acontecem em outras apresentações. Geralmente, quem nos assiste nos aplaude por, pelo menos, três minutos”, conta.

Dueto com Gardel

Para estimular esta catarse, Dom Américo aposta em repertório composto de clássicos, entre eles: “Adiós Muchachos”, “Caminito”, “Mi Buenos Aires querido”, “Mano a mano”, “Melodia de arrabal”, “Garufa”, “Percal Uno” e até “Emociones”, uma versão do hino do rei Roberto Carlos. As músicas são interpretadas ora pelo cantor, ora por Therezynha Sylva, ora pelo próprio Carlos Gardel. Sim, sua presença é notada não apenas em pôsteres dispersos pelo palco, mas também em gravações antigas, como a de “El dia que me quieras”, utilizada como ponto de partida para um dueto com Américo. Neste momento do espetáculo, a voz do intérprete brasileiro resgata um dos principais elementos do tango: a emoção.

Outro ponto alto de “Carlos Gardel” são as performances dos dançarinos, idealizadas por Diogo Carvalho. Veterano de palco com a Companhia Nuevos Aires (que, em 2003, levou o “Entretangos” ao Teatro Municipal de Niterói), ele estréia como coreógrafo nos palcos com “pé-quente”. Entrou como substituto, e em seguida, assumiu o papel de Marcelo Martins (nome de referência do tango carioca), impossibilitado de continuar a temporada. Os olhares gulosos da platéia em direção ao palco e os aplausos durante a apresentação mostram que o rapaz leva jeito para coisa. Entre os números, destaque para a plasticidade de “Tangueira”, inspirada nos cabarés argentinos, e para “Jalousie”. Em ambas, a iluminação dá um charme a mais e refina o acabamento das performances dos tangueiros em cena.

Diálogo com a contemporaneidade

Também chama atenção a maneira como “Carlos Gardel” dialoga com as tendências do presente, mostrando que a obra do tangueiro está longe de ser estanque. Ao contrário, serve de ponto de partida para criação de novas vertentes do ritmo, entre elas o tango eletrônico, também lembrado no espetáculo. “É como se fosse uma evolução. Antes, ele era tocado com um ou dois violões. Depois foram incorporados outros instrumentos como o bandoleon, violino, piano. Virou algo orquestral e, agora, dialoga com a música eletrônica. É a partir desta transformação que surgem novos talentos”, diz Don Américo.

Para Diogo Carvalho, a incorporação destes novos elementos ajuda a modificar “a cultura bem tradicional do tango, com dogmas e valores anacrônicos”. “Talvez isto colabore para que o ritmo seja divulgado e, conseqüentemente, atraia novos admiradores, não necessariamente jovens, até porque esta idéia de segmentar o público pela idade está obsoleta. Em um mundo de culturas híbridas e identidades multifacetadas, o tango só se perpetuará se conseguir dialogar com outras tendências musicais”, opina.

Segundo o coreógrafo, o ritmo tem sido afetado – ainda que em menor escala – pelo retorno badalado da dança de salão à noite carioca. No entanto, ressalta ele, o estilo ainda é visto como “uma arte mais chique” e nem sempre é vendido de forma mais atrativa para o público. “A maioria das escolas de dança de salão não tem foco para os serviços que oferecem. O que vemos são guetos tentando de alguma maneira não sucumbir diante a oferta monstruosa de lazer do mundo contemporâneo. Os mais jovens procuram a dança de salão despretensiosamente. A escolha pelo tango é questão de sorte”, afirma.

“CARLOS GARDEL – A LEGENDA DO TANGO” – Com Don Américo, Therezynha Sylva, Saleti Lima, Leonardo Alberini, Camille Chano, Diogo de Carvalho, Fabiana Torenzani e Henio Júnior . Teatro Dercy Gonçalves (Grajaú Country Clube – Rua Professor Valadares, 262 – Grajaú). Sábado (31/5), às 20h, e domingo (1/6),às 19h30. Ingressos a R$ 30.

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