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Indiana Jones e o reino da caveira de cristal

Por Luciana D'Aulizio • 2 Jun, 2008 • Categoria: Cinema

Indy como nos velhos tempos

Quando cheguei ao cinema para assistir à volta de Indiana Jones, admito, estava com vários preconceitos na cachola, assim como alguns críticos ao meu lado, que não paravam de comentar cenas mirabolantes idealizadas por George Lucas em outras aventuras de Indy e na série “Star Wars”. Na ocasião, eu pensava como a criatividade de Hollywood deve estar em crise para trazer de volta à telona todos os personagens que fizeram história. “Super-homem, Rocky Balboa, Rambo… Daqui a pouco verei novamente Robocop, os policiais de ‘Loucademia de polícia’ ou Eddie Murphy na pele do tira Axel Foley”, cogitava, com um ar ranzinza.

Terminada a sessão, eu e os outros cinéfilos éramos outras pessoas: companheiros de Indiana Jones, com sorriso de orelha a orelha, que tinham participado de uma prazerosa expedição em busca da caveira de cristal. Esta descrição já sugere que gostei da continuação da série e a recomendo sim para todos que sentem a falta de histórias que realmente se enquadram na categoria “Aventura” nas prateleiras das locadoras. E gostei mais por mérito de Harrison Ford e Spielberg que de George Lucas (Perdoem-me, fãs de Luke Skywalker), diga-se de passagem.

“Indiana Jones e o reino da caveira de cristal” tinha tudo para ser mais um daqueles filmes em que, a cada solução nada trivial do herói para um dilema, o espectador resmunga “Tá bom, até parece!”. Célebre por suas histórias fantásticas, Lucas parece ter tomado algumas xícaras de chá de cogumelo antes de criar o retorno do arqueólogo, repleto de devaneios que, vez ou outra, deixam o espectador perdido. Que a narrativa seja mirabolante, tudo bem, mas que os fatos tenham pelo menos uma coerência interna, como acontece em “Indiana Jones e o Templo da Perdição” (1984), por exemplo, é o que se espera.

A quarta aventura de Jones se passa em tempos de Guerra Fria, no final de década de 50, quando Indy escapa de uma armação de soviético em território norte-americano, liderada pela agente Irina Spalko (Cate Blanchett). O episódio faz com que o arqueólogo vire alvo de suspeita do FBI e perca seu emprego na Universidade Marshall. E a maré de complicações para o mocinho do filme não pára por aí. Ao deixar a cidade, Indiana encontra o jovem Mutt (Shia LaBeouf), filho-postiço de um colega, que pede ajuda em uma missão pra lá de surreal em territórios do Peru, relacionada a tal caveira de cristal. Durante a expedição, adivinhe quem competirá com eles pela relíquia? Irina, interessada em utilizar os poderes paranormais do objeto para controlar as mentes humanas.

Toda esta colcha de temas desconexos é feita pelo personagem de Cate Blanchett, uma espécie de rato Pink de saias e visual húngaro. Personagem mal construído e bizarro – no sentido original da palavra – que prejudica a performance da atriz em cena. Fica difícil de saber se quem “tenta dominar o mundo” é ela ou os soviéticos.

Se em alguns momentos, George Lucas apela em sua aventura com pitadas de ficção científica, em outros sua parceria com o roteirista David Koepp é bem sucedida, principalmente pelo humor na medida certa. Ele, somado às eletrizantes cenas de perseguição, prende a atenção dos fãs de Indy. Mérito que também deve ser estendido ao Spielberg, que faz cenas de perseguição como só ele sabe fazer e dirige de forma exitosa Ray Winstone (como Mac), John Hurt (Professor Oxley), Jim Broadbent (Charles Stanforth) e Karen Allen, que volta a encarnar Marion Ravenwood, affair do protagonista em “Indiana Jones e os caçadores da arca perdida” (1981), o primeiro filme. Destaque também para os cenários, muito bem acabados como em todo filme do “pai” de “ET” e “Parque dos Dinossauros”.

O grande trunfo do filme é sem dúvida a performance Harrison Ford como o arqueólogo que dá nome ao filme. O ator está com rugas no rosto, alguns quilos extras e não tem o mesmo condicionamento físico dos outros três filmes, é verdade. No entanto, vê-lo em cena com a jaqueta de couro surrada, o famoso chicote e a música de John Williams de fundo, é como ver Sean Connery com James Bond, Zilka Salaberry como Dona Benta ou Stallone como Rocky. Há comunhão e química que ultrapassam as fronteiras da boa direção e do talento para dar vida a um personagem.

O retorno de Indy não chega a ser tão mágico quanto o retorno do homem de aço, nem tão emocionante quanto o do peso-pesado de Stallone, mas ainda assim muito divertido, por conta do carisma do ator, com um bom timing em cena. Seu carisma é tamanho que até compramos felizes a idéia de ele realmente é capaz de sobreviver a uma explosão atômica por estar protegido dentro de uma geladeira; saltar de carros em movimento com facilidade ímpar e outras façanhas que deixariam MacGyver, Ethan Hunt (o agente de missão impossível) e talvez até o próprio Clark Kent boquiabertos, afinal Indiana Jones é um veterano que não conta com super poderes. Só isso já seria um bom pretexto para pegar uma fila daquelas a fim de comprar ingresso para ver o filme. O sacrifício vale a apena, acredite.

Nota ao internauta: ao terminar esta resenha, tomei conhecimento de que meus pensamentos andam realmente em sintonia com os que regem indústria cinematográfica de Hollywood. Eddie Murphy vai realmente fazer o quarto filme da série “Um tira da pesada”. Será que o sargento Carey Mahoney é o próximo da lista?

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