Pé na estrada: Perdida em Terras Incas, fui parar no Pacífico
Por Luana Dias • 7 Jun, 2008 • Categoria: Coluna Esquerda, ColunistasUma das minhas maiores paixões na vida é colocar uma mochila nas costas com meia dúzia de peças de roupas e sumir por este mundão afora. Conhecer lugares, países, pessoas, respirar novos ares, viver aventuras ou simplesmente esquecer por alguns dias da rotina louca de jornalista. Este estilo de vida – quase “vício” – serviu de inspiração para a criação da coluna “Pé na estrada”. Queria aproveitar este espaço semanal na Re-vista para poder compartilhar com as pessoas um pouco das experiências e sensações vividas nas andanças de viajante. Para dar início a este diário semanal, escolhi um dos meus destinos mais recentes: Peru.
No início, tudo não passava de uma utopia de três ex-estudantes de Comunicação, que tinham duas idéias fixas na cabeça: conhecer de perto a História do Povo Inca e ver pela primeira vez o Oceano Pacífico. Graças a uma passagem mais barata da TACA Airlines, o sonho virou realidade: dia 16 de maio de 2008 embarcamos no Galeão para a nossa aventura. Depois de literalmente “dormirmos” no aeroporto de Lima esperando a nossa conexão para Cusco, chegamos finalmente à primeira parada. Ao pisar na antiga capital do Império Inca, nos deparamos com o primeiro desafio: a dificuldade de respirar. Era o tão famoso soroche ou “mal das alturas”. A primeira coisa que fizemos ao largar as malas no hostal foi tomar um bom e quente chá de coca. Acreditem: a planta, seja em forma de chá seja as folhinhas que são mastigadas por quase toda a população local, é realmente essencial para a sobrevivência nos mais de 3.000 metros de altura da cidade.
Já no nosso primeiro dia de passeio, tivemos uma grata surpresa: as ruas estavam tomadas de muita festa. O sincretismo religioso das culturas indígenas ancestrais e do catolicismo europeu resultava numa grande mescla de cores que saía das Igrejas da cidade. Estandartes, dança, canto, flautas e batucadas davam o tom da procissão religiosa que subia e descia as ruas. Isto era apenas uma premissa do que estaria de vir dias depois, na quinta-feira de Corpus Christi. Na Plaza de las Armas, diante da Catedral de Cusco, uma verdadeira multidão se aglomerava e desde os primeiros raios da manhã enfrentava o sol forte para acompanhar uma missa campal rezada em espanhol e em ‘quechua’ (idioma indígena). Até o final do dia, dezenas e dezenas de procissões se formavam ao redor da praça, com gigantescos e lindíssimos andores ornamentados com espelhos. Dias antes, tínhamos presenciado na mesma praça uma vigília em homenagem a Tupac Amaru, líder indígena que esteve à frente de uma revolta contra os espanhóis no século XVIII e que foi brutalmente executado. Baita sorte.
Os momentos mais marcantes da nossa viagem, no entanto, aconteceram em Machu Picchu. Para chegar à Cidade Sagrada, optamos por uma rota “alternativa” não tão árdua como o Caminho Inca – que totaliza três dias de caminhada – mas consideravelmente radical para três mochileiras sedentárias. Em Cusco, pegamos um ônibus com destino a Quiyllabamba, descemos em Santa Maria, um “pueblo” no meio do nada, onde passamos quase três horas esperando a primeira kombi em direção á próxima cidade, que só saía às 4h da manhã. Mais apertadas do que uma sardinha em lata, seguimos numa estradinha de terra digna de rally até a cidade de Santa Tereza, e após dividir um táxi com mais três pessoas e várias bolsas, chegamos à hidrelétrica. Lá, começamos uma cansativa porém belíssima caminhada pela linha do trem até chegar à Aguas Calientes. Todos nos diziam que o trajeto era de duas horas, mas no nosso ritmo ele se teve duração de três horas e meia.
Chegamos semi-vivas e fomos logo comprar os nossos bilhetes de ônibus para a subida até Machu Picchu. Não havia a menor condição de enfrentarmos 8 km de subida íngreme no dia seguinte. Seis dólares o trajeto. Compramos também o ingresso para Machu Picchu, que nos custou a facada de mais de cem soles. Todos os sacrifícios valeram a pena no primeiro minuto em meio às fantásticas ruínas incas. Recepcionadas por lhamas (!!), fomos direto a entrada de Waynna Picchu, que significa “pico jovem” em quechua. Lá, após uma hora de caminhada, chegamos ao ponto mais alto da cidade sagrada, de onde contemplei a vista mais impressionante de minha vida. De volta a Machu Picchu, a história Inca passava na frente de nossos olhos: frente-a-frente com templos, casas, tumbas, estruturas agrícolas, nossa imaginação voava alto. Indescritível e inesquecível. No dia seguinte, passamos o dia todo na estrada, percorrendo diversos pontos : as ruínas de Ollantaytambo, a plantação de batatas de Moray, a paisagem branca das Salineras de Maras, Chinchero, onde compramos toalhas incríveis e por fim, de volta ao aeroporto de Cusco.
Os dois últimos dias da viagem foram dedicados à Lima. A cidade – que à primeira vista poderia ser definida como uma São Paulo peruana – guarda cenários tão distintos quanto o Centro Antigo de influência espanhola, a boemia do bairro de Barranco e a modernidade e elegância de Miraflores. As plaquinhas de “zona protegida em caso de sismos” espalhadas por toda parte nos lembravam que o local foi alvo constantes da fúria dos terremotos. Um dos mais emblemáticos – ocorrido em 1974 – foi o tema de grande parte da conversação com Jesus. Assim se chamava (acreditem!) o chefe dos guias de visitação da Catedral de Lima, que virou nosso ídolo ao narrar com emoção cada episódio relacionado ao templo. No fim da tarde, nossa despedida da cidade não poderia ser melhor: do alto de um mirante, vimos o sol se pôr nas águas do Oceano Pacífico, lindo em sua imensidão.
Para finalizar, queria deixar aqui o meu agradecimento às minhas companheiras de viagem, Cristiana Giustino e Clarissa Glória. Confesso que se não fosse o empenho de Cristiana, que dedicou horas e horas de seus dias às pesquisas sobre história e hospedagem e o “mapa humano” que é Clarissa, nossa viagem não teria sido tão completa. Muchas gracias, chicas!
Luana Dias
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Ótima idéia de fazer essa coluna!! Valeu por escolher o Peru como primeira história, se bem que acho que nossa aventura podia dar um livro!! Beijão e até a próxima!!!
Bacaníssimo, Lu! Vai ser ótimo saber das suas aventuras por aqui.
E não podia começar melhor… Machu Picchu é meu sonho, imagino a energia incrível desse lugar.
Parabéns! Vou acompanhar.
Beijos e saudades!
A coluna pé na strada é tudo de bom. Me sentir na mochila da Luana Dias, acompanhando a rica rota de cultura e emoções. Parabéns!
Um complemento perfeito a minha coluna:
http://crisgiustino.multiply.com/journal/item/17/Coisas_que_vi_percebi_e_descobri_em_terras_incas
Muito, muito interessante!
beijos e muito muito obrigada pelo carinho, amigos!
Luana Dias