mimbo

A Lei segundo Kafka

Por Luana Dias • 16 Jul, 2008 • Categoria: Principal, Teatro

Quem nunca se deparou com alguma história sobre os entraves da interminável e complexa teia burocrática do sistema judiciário? Este é o enredo da peça “O Processo”, uma adaptação para os palcos de um dos clássicos do início da literatura do século XX, redigida pelo escritor tcheco Franz Kafka, em cartaz no Teatro Maison de France até o dia 27 de julho. No espetáculo, dirigido e com texto adaptado por José Henrique, o público é convidado a seguir os passos de Josef K. (Tuca Andrada), um alto funcionário de um banco que na manhã de seu aniversário de 30 anos se encontra detido por causas desconhecidas e não-reveladas. Durante os 120 minutos de peça, o personagem procura entender os motivos de sua detenção, sem conseguir encontrar respostas concretas para suas perguntas.

Gradativamente, a platéia é convidada a mergulhar junto com Josef K. nas entranhas do seu processo. A agonia e a sensação de impotência vão pouco-a-pouco tomando conta do personagem. Perdido, o bancário passa um dia à procura de um endereços incompleto. Ao entrar nos porões onde os processos caminham em ritmo lento, o ar é pesado, e Josef K. quase morre sufocado pela poeira. O desconforto e a tensão vividos pelo protagonista em cena são passados à platéia a partir da repetição da rotina de visitas a advogados, nos diálogos com falas longas, repletas de expressões judiciárias desenroladas nos depoimentos ao Tribunal, e até mesmo de relacionamentos interesseiros e superficiais. Tudo sempre com uma certa ponta de humor.

Dentre os momentos de risos entredentes, o destaque vai para a cena memorável em que o personagem Tintoreto, um pintor de quadros do alto escalão do Tribunal, conta a Josef K. quais são as alternativas possíveis para o encaminhamento do seu processo. Em meio a risos cúmplices da platéia, o pintor explica a diferença entre a absolvição real, a absolvição abstrata e o processo arrastado, uma crítica bem-humorada, porém contundente à confusa e ineficiente burocracia do sistema judiciário.

Estantes de aço repletas de caixas de arquivos e processos compõem o cenário, idealizado pelo cenógrafo Hélio Eichbauer. De dentro das caixas de arquivos e processos, são retirados os adereços usados para dar vida aos mais de 50 personagens vividos pelos atores Antonio Alves, Gustavo Ottoni, Letícia Guimarães, Paula Valente, Rogério Freitas, Roberto Lobo, Sílvia Monte e Suzana Abranches, que sustentam a cena com Tuca Andrada. Como figurino-base, todos os atores usam sóbrios ternos criados por Daniela Vidal.

A cena que termina o espetáculo de forma surpreendente dá ao público a liberdade de imaginar as diferentes versões para o fim da história de Josef K. Dura lex sed lex? Vale a pena ir à Maison de France e refletir com Kafka sobre os caminhos da Lei.

O PROCESSO
Teatro Maison de France
Avenida Presidente Antonio Carlos, 58 - Centro
Informações: (21) 2544-2533
Ingressos: R$ 40,00 (inteira) / 20,00 (meia) às quintas e sextas-feiras
R$ 50,00 (inteira) / 25,00 (meia) aos sábados e domingos

Tags: , , , , , , ,

Leave a Reply